Por que a representatividade de Lexa é tão importante?

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No último episódio de The 100, intitulado “Treze” tivemos a morte da comandante Lexa, uma personagem amada e venerada pelos fãs da série.

Se há uma coisa que sabemos sobre The 100, provavelmente é que pessoas morrem. MUITO. Como a série está claramente influenciada por Battlestar Galactica, Lost e Game of Thrones, The 100 tem uma propensão para matar personagens principais a nível mundial e às vezes em maneiras brutais.

Então, por que a morte de Lexa é diferente? Bem, existem muitas razões, mas a maioria delas se resumem em uma palavra: representatividade.

Lexa, além de ser uma jovem mulher que é a Comandante e líder dos 13 clãs (que representam a maioria do que parece ser o que restou da raça humana), é também lésbica. Além disso, ela estava novamente em um relacionamento com a protagonista bissexual da série, Clarke Griffin. Até última análise, existem precisamente zero personagens como Lexa na televisão.

Do ponto de vista das pessoas homossexuais que sentem como se não vissem muitos rostos na televisão que reconhecem como sendo semelhantes aos delas, Lexa é muito importante. Histórias importam. Quando você está em uma minoria oprimida, ter uma história com uma personagem assim não apenas faz você, como um indivíduo sentindo-se representado, mas também dá legitimidade a pessoas como você.

O que é basicamente tudo para se dizer que, se você decidir matar um personagem LGBT como Lexa, as consequências podem não ser limitadas ao que acontece dentro de um mundo ficcional.

Mais uma vez: histórias importam. Quando você faz parte de uma minoria oprimida, cuja representação ficcional repetidamente encontram-se ignoráveis, isso pode te fazer se sentir inútil ou sem importância. Se os personagens que te representam não podem ter um final feliz, por mais bobo que isso possa parecer, começa a parecer que você também não pode ter um, especialmente se você for um jovem gay ainda chegando a um acordo com seu jeito de ser. E essa é uma grande parte do público de The 100.

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Isso de Alycia Debnam-Carey ter que deixar The 100 era inevitável, mas a natureza de sua partida poderia ter sido de muitas maneiras. Em “Treze”, Lexa morre após ser baleada por uma bala perdida destinada à Clarke. A morte de Lexa também acontece alguns momentos depois de Clarke e Lexa finalmente fazerem sexo pela primeira vez, um momento que os fãs estavam esperando para ver desde a última temporada. A sua morte foi, então, usada como uma maneira de incorporar e impulsionar uma outra trama que anteriormente parecia desconectada do resto da narrativa da série.

Resumindo: os fãs de Lexa receberam algo que queriam desesperadamente antes de ter sua heroína, uma das poucas que os representam, tragicamente assassinada por acidente, com a intenção de empurrar outras histórias de personagens héteros para frente.

Você pode argumentar que Lexa tinha que morrer, mas mesmo que você tiver pouca simpatia, é impossível não ver porque pessoas gays que dependem de personagens como Lexa para levantá-los, foram esmagados pela natureza da morte dela.

E para adicionar insulto à reclamação, a morte de Lexa também parece ser uma recreação bem próxima do talvez caso mais infame da Síndrome da Lésbica Morta: Tara Maclay de “Buffy the Vampire Slayer”. No episódio de 2002, “Vendo em vermelho”, Tara também foi morta por uma bala perdida destinada à outra pessoa logo depois que ela e sua namorada, Willow, haviam se reconciliado e passado a noite juntas.

Os fãs estavam absolutamente abatidos e depois, qualquer um que tenha vivido para assistir essa morte cruel de uma mulher lésbica foi instantaneamente atraído de volta para aquele momento enquanto assistiam “Treze”. Para muitas pessoas, a morte de Lexa reafirmou, quase 15 anos depois da morte de Tara, que os escritores de TV ainda veem seus personagens gays apenas como um meio para o fim.

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Os tweets de Rothenberg desde “Treze” tem sido unicamente links para podcasts e reviews de pessoas elogiando ou defendendo ele, especificamente. Para maior clareza, Rothenberg, como dono da série, foi quem decidiu que Lexa iria morrer e quais circunstâncias a morte dela teria.

O único ponto a qual Jason Rothenberg meio que reconhece os sentimentos dos fãs e que ele podia ter lidado com a saída de Alycia Debnam-Carey de The 100 de uma forma diferente, está no podcast de The 100, The Dropship. Aqui o que ele tinha a dizer:

“Eu estou um pouco abalado com a intensidade da negatividade, com certeza. Eu entendo; eu realmente entendo. Eu quero conseguir dizer para essas pessoas… que isso existe na televisão e no geral. Nós não criamos isso por essa razão. Obviamente essa é uma série onde as pessoas morrem. Personagens principais são mortos e a Comandante, não é um trabalho com uma expectativa de vida longa… para que eu trate ela diferentemente – Eu acho que alguns estavam dizendo que eu deveria ter tido mais cuidado com ela porque ela é uma lésbica. Eu estou muito dilacerado sobre isso obviamente, porque eu entendo, eu sou sensível a isso, e estou chateado que as pessoas estão chateadas.”

Além dos mais de 15 mil seguidores que deixaram de seguir a conta de Jason Rothenberg no Twitter, há também muitos fãs que juraram nunca mais assistir The 100 novamente. Apesar de Rothenberg apenas ligar para artigos positivos até agora, há muito mais que tem sido crítico da morte de Lexa e da forma que Rothenberg tem lidado com isso desde que “Treze” foi ao ar.

Desde quinta-feira, tags para Lexa permaneceram nos trends do Twitter por muito mais tempo que #The100 ficou. Cada tweet de Jason foi respondido com duas frases principais repetidas várias vezes: “quem se importa?” e “cale a boca”. Uma busca pelo nome de Jason Rothenberg também traz a frase “estamos desapontados com Jason Rothenberg”.

Há até uma petição online com 15.000 assinaturas pedindo que Lexa volte de alguma forma, mesmo com as escritoras Kim Shumway e Shawna Benson dizendo que isso pode quase que certamente nunca acontecer.

Então, sim, é uma grande coisa. Não muito tempo atrás, escrevi sobre coisas que outras séries podiam aprender com The 100. Duas delas eram “ter mais representação gay” e “interagir com o público através da mídia social”. Bem? The 100 acabou de matar sua única lésbica e seu escritor acaba de perder mais de 10% dos seus seguidores online.

The 100 tem encontrado muito sucesso através da comunidade gay, especialmente por interagir com eles através de tweets ao vivo com cada novo episódio que vai ao ar. Essa última parte é absoltamente crítica, porque, apesar de downloads digitais, nada é mais importante para uma série e sua rede de televisão do que exibições ao vivo. The 100 rapidamente foi ganhando força nessa frente, mas agora parece que o vento foi retirado de suas velas.

Quase 15 anos atrás, não houve nenhuma consequência imediata quando os fãs ficaram furiosos por Tara Maclay ter sido morta em “Buffy the Vampire Slayer”. Agora, só levou apenas uma semana para The 100 sentir as consequências extremamente negativas de matar Lexa da mesma maneira.

The 100 perderá um pedaço de sua audiência? Tudo parece menos seguro. Será que vai ser cancelada antes de uma 4ª temporada? Provavelmente não. Mas ainda há uma lição extremamente importante a ser aprendida aqui – um dono de uma série não pode se dar ao luxo de tratar seu trabalho como se ele existisse num vácuo. Contar histórias boas e autênticas significam manter o mundo real e as pessoas que assistem sua série em mente. E quando as pessoas estão chateadas com uma decisão que você tomou, reconhecê-las, deixá-las saber que foram ouvidas – caso contrário você pode encontrar sua série anteriormente de sucesso menos segura para a renovação.

A maior consequência de tudo, porém, continua a ser a perda de Lexa. Uma mulher lésbica que era uma líder para o seu povo não é um bem fácil de encontrar na televisão. Ao contrário da maioria das outras mortes, não há nenhum outro canal para mudar, nenhuma outra mulher como Lexa que adolescentes gays serão capazes de olhar e se sentir representados e respeitados. E isso é muito pior do que qualquer que seja o destino reservado para uma série da CW.

Esse texto foi originalmente postado no site Blastr.

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